A nostalgia do “político raiz” e as contradições do discurso
Foto: Reprodução/Maurílio Júnior
Em entrevista recente, a deputada estadual Camila Toscano resgatou uma imagem clássica da política nordestina: a do líder que “senta para comer uma galinha” com o eleitor e conversa de perto com a população. Ao elogiar o estilo do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, a parlamentar apresentou essa figura como um contraponto ao perfil que atribui ao governador João Azevêdo e ao ex-governador Ricardo Coutinho, descritos por ela como gestores de postura mais reservada.
O argumento se apoia numa nostalgia política bastante conhecida: a ideia de que o eleitor prefere o líder acessível, presente, quase doméstico em sua relação com a comunidade. É uma narrativa antiga e poderosa, especialmente em estados como a Paraíba, onde a política municipal e regional historicamente se construiu a partir da proximidade pessoal entre lideranças e eleitores.
Mas o discurso da proximidade sempre merece um olhar mais atento. Na política brasileira, a imagem do líder que se mistura ao cotidiano popular muitas vezes convive com estruturas familiares de poder que atravessam décadas.
A própria trajetória política da deputada é um exemplo dessa continuidade. Camila é filha da atual prefeita de Guarabira, Léa Toscano, e do também ex-prefeito de Guarabira Zenóbio Toscano, figura marcante da política paraibana e liderança de forte influência no Brejo do estado. Ao longo dos anos, o grupo político construído por Zenóbio consolidou presença duradoura na vida pública da região, atravessando diferentes ciclos eleitorais e mantendo influência significativa no cenário local.
É nesse ponto que o discurso do chamado “político raiz” revela uma dimensão menos romântica. O modelo da proximidade permanente com o eleitor — a conversa na porta de casa, o almoço compartilhado, a presença constante nas cidades — também foi, historicamente, um dos pilares que sustentaram a longevidade de grupos políticos familiares no interior do país.
Não por acaso, esse mesmo modelo ajuda a explicar a permanência de estruturas de poder que atravessam gerações. No caso de Guarabira, a influência política da família Toscano se consolidou justamente a partir dessa lógica de presença cotidiana e de vínculos pessoais com o eleitorado. Trata-se de uma forma de fazer política que, ao mesmo tempo em que reforça a imagem de proximidade, também cria as condições para a continuidade de grupos familiares no comando da vida pública local.
Quando a deputada recorre à imagem do líder que “senta para comer uma galinha” com o eleitor, portanto, ela evoca uma tradição que ajudou a moldar não apenas a política paraibana, mas também a própria trajetória de seu grupo político. É uma narrativa poderosa porque fala diretamente ao imaginário popular. Mas também porque revela como certos modelos de liderança — apresentados como símbolo de autenticidade — podem funcionar, na prática, como instrumentos de continuidade de velhas estruturas de poder.
Em um ambiente político cada vez mais mediado por redes sociais e campanhas digitais, a simbologia da política presencial ainda tem força. Talvez porque ela represente algo que a política brasileira conhece bem: a capacidade que determinadas lideranças têm de se apresentar como expressão do povo enquanto mantêm, ao longo do tempo, posições consolidadas no poder.