CRÔNICA | Zé Martins e o domingo em que Mari passou por sua varanda
Foto: Reprodução/Família Martins
José Martins. Zé Martins do Sindicato. Mas, para Mari, apenas: Seu Zé.
Há pessoas que não pertencem só à própria família. Pertencem a uma cidade inteira. Zé Martins é uma dessas raridades humanas que viram ponte, abraço, presença constante. Uma daquelas figuras que a gente reconhece de longe não pelo cargo que ocupou, mas pelo jeito de caminhar, de olhar, de falar, de ouvir.
Sindicalista histórico à frente do Sindicato Rural de Mari. Ex-vereador. Homem do campo político, sim — mas, sobretudo, homem do diálogo. Conciliador por natureza. Respeitoso até nas divergências. Capaz de discordar sem desumanizar. Capaz de fazer política sem perder a ternura.
E, acima de tudo, um homem de fé. Um homem da Igreja. Daqueles que não usam Deus como discurso, mas como prática.
Neste domingo, 18 de janeiro, a procissão do padroeiro São Sebastião saiu pelas ruas de Mari como sempre: com cânticos, promessas, passos lentos e corações acelerados. Mas havia uma ausência que não era vazia. Faltava um passo que há décadas marcava aquele percurso invisível.
Pela primeira vez em muitos anos, Zé Martins não estava no meio da multidão. Não por falta de fé. Não por distância da tradição. Mas porque o corpo, esse companheiro que um dia também pede pausa até aos mais fortes, impôs um limite.
Seu Zé ficou em casa. Mas não ficou fora.
Da varanda, ele acompanhou tudo. Cada rosto conhecido. Cada canto antigo. Cada gesto de devoção. Uma foto divulgada pela família nas redes sociais eternizou o momento: Seu Zé Martins vidrado na imagem de São Sebastião, olhando o povo passar como quem revê a própria vida em capítulos. O sorriso manso. O olhar atento. A alegria serena de quem sabe que fez parte — e ainda faz.
Naquela imagem havia mais do que um homem observando uma procissão. Havia um homem atravessado por ela.
Porque Zé Martins não estava apenas vendo São Sebastião passar. Ele estava se vendo ali também.
Nos anos de luta sindical. Nas campanhas políticas feitas sem ódio. Nos embates resolvidos com conversa. Nas vezes em que respeitou adversários quando o mundo ensinava a odiá-los. Nas tardes em que caminhava pelas ruas de Mari, acenando para todo mundo, chamando pelo nome, ouvindo histórias, distribuindo sorrisos.
Seu Zé é desses homens que, quando alguém morre, ele aparece primeiro. Não com discurso. Com abraço.
Desses que entram em velórios em silêncio e saem deixando um pouco de conforto. Desses que entendem que presença vale mais do que palavra.
Humildade em pessoa. Gentileza em movimento. Uma autoridade que nunca precisou levantar a voz.
Mesmo parado, ele caminhava. Mesmo em silêncio, ele rezava com a cidade inteira. Mesmo fora da procissão, ele estava dentro dela — porque há gente que não precisa mais ir. A procissão é que passa por essas pessoas.
Seu Zé Martins é isso: patrimônio afetivo de Mari. Não por títulos. Não por cargos. Mas por coerência. Por humanidade. Por fé vivida sem alarde.
Que São Sebastião siga lhe dando força. Que Mari siga lhe devolvendo em carinho tudo o que ele sempre ofereceu em forma de respeito, diálogo e dignidade. E que a gente nunca esqueça: há pessoas que não se aposentam da vida pública — elas apenas mudam o ritmo do passo e continuam caminhando, ano após ano, dentro do coração do povo.