EDITORIAL | Prefeita Lucinha: 250 mil minutos sem enfrentar a verdade

Foto: Reprodução Instagram/Acervo Institucional 


Há exatos 250.560 minutos, ou 174 dias, a prefeita de Mari (PB), Lucinha da Saúde, silencia. Desde o primeiro dia do ano, não concedeu uma única entrevista a veículos de imprensa. Sua comunicação com a sociedade tem se limitado a publicações pré-produzidas em seu perfil no Instagram, de no máximo dois minutos, geralmente com fundo musical, legendas automáticas e sem espaço para contraponto, pergunta ou crítica. Para uma cidade mergulhada em dúvidas, esse silêncio é barulhento.

Em meio a uma gestão envolta em problemas sérios, a prefeita parece considerar a comunicação institucional como um detalhe a ser terceirizado à propaganda. No único momento em que se dispôs a falar ao público, foi em um programa de entretenimento de uma rádio comunitária — e ainda assim na condição de “mãe”, não de mandatária. Isso ocorreu na véspera do Dia das Mães, quando os escândalos administrativos já ferviam.

Nestes quase seis meses, Mari foi sacudida por um possível racha político, crises sucessivas com vereadores, a paralisação da obra dos banheiros da rodoviária, e a distribuição ainda não explicada de 24 mil cestas básicas. Também chamam atenção os indícios de superfaturamento na compra de mochilas escolares: foram dois modelos adquiridos — a mochila simples a R$ 90, e a versão com carrinho a R$ 120 cada. Os valores destoam do mercado e levantam dúvidas ainda não respondidas.

A lista continua. São R$ 1,4 milhão gastos com livros sem registro de entrega, falta de medicamentos, e a repentina saída da secretária municipal de Saúde, sem explicações públicas convincentes por parte do governo. Além disso, chama atenção o volume de contratos firmados com gráficas de fora do município, especialmente os mais de R$ 1 milhão em materiais gráficos adquiridos apenas pela Secretaria de Administração. Em uma cidade carente de serviços básicos, tamanha despesa é no mínimo questionável.

No campo da mobilidade urbana, a gestão ensaia criar uma Superintendência Municipal de Trânsito, sem esclarecer como pretende sustentar simultaneamente essa nova estrutura e a já existente Secretaria de Transporte e Trânsito, que, embora criada por lei e com servidores lotados, ainda não foi efetivamente implementada. A sobreposição de funções e a duplicação de estruturas indicam um modelo de gestão pouco racional, voltado mais à criação de cargos do que à resolução de problemas reais da população.

Outro ponto de atenção é o contrato de R$ 1,7 milhão em material de construção, que vem sendo gerido internamente por dois familiares diretos da prefeita: seu filho, atual secretário de Infraestrutura, Habitação e Urbanismo, e seu sobrinho, responsável por um setor de compras da gestão municipal. A concentração de poder orçamentário em mãos de parentes diretos, mesmo com nomeações oficiais, levanta sérias preocupações sobre o cumprimento dos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e eficiência.

Na comunicação, o cenário tampouco é alentador. A Prefeitura mantém 13 assessores de comunicação, ao mesmo tempo em que contratou por R$ 69 mil, via licitação, uma empresa do Ceará para cuidar do marketing institucional. A duplicidade de estruturas e o foco excessivo na imagem pública reforçam a sensação de distanciamento entre governo e governados.

É inadmissível que, diante de tantas suspeitas e distorções administrativas, a resposta do Executivo municipal seja o recolhimento ao Instagram. O cargo de prefeita exige enfrentamento da realidade — e prestação de contas. Governar não é apenas posar para vídeos editados com frases de efeito; é, antes de tudo, responder aos cidadãos, encarar as perguntas difíceis e respeitar a função pública com transparência.

O silêncio de Lucinha da Saúde não é prudência. É desprezo institucional.


Postagens mais visitadas deste blog

EDITORIAL | Lucinha e Acássio, respeitem o senhor Antônio Gomes

Contrato de quase meio milhão em Mari (PB) vai para empresa com sede residencial e capital de R$ 20 mil

EDITORIAL | Na Araçá FM, Antônio bebe do mesmo veneno dado a Marcos Martins