Editorial – Mari (PB) vive a pior fase de sua gestão: promessas digitais, contratos suspeitos e poder familiar




Foto: Reprodução Instagram/Prefeitura Municipal de Mari 

A cidade de Mari, na Paraíba, atravessa uma crise administrativa que ultrapassa as disputas políticas tradicionais. O que se vê hoje é uma estrutura pública dominada por interesses pessoais, marcada pelo aparelhamento, pela falta de transparência e por respostas superficiais a problemas reais.

No centro dessa crise está a prefeita Lucinha da Saúde, que rompeu quase por completo com o grupo político dos Gomes, antigos aliados. O vereador Alisson Gomes (José), filho do ex-prefeito Antônio Gomes, já sente os efeitos: as gratificações dos seus indicados foram cortadas, e os cargos estão na fila para demissão. Não se trata de reorganização técnica, mas de uma ação deliberada de exclusão política.

Aline Nóbrega, esposa de Alisson e secretária de Finanças, simboliza esse esvaziamento institucional. Apesar de ocupar um cargo central, não possui senhas nem autonomia para agir. Sua permanência na função serve apenas como peça política, o que escancara a falta de coerência entre o discurso de meritocracia e a prática do governo.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Agrário segue pelo mesmo caminho. Desde que a gerência de Turismo foi transferida para Roberta Suênia, filha da prefeita e secretária de Cultura, Esportes e Turismo, a pasta perdeu força. Hoje conta com um secretário, Severino Ramos, e três colaboradores. Projetos técnicos são ignorados, a estrutura está desmontada, e a gestão, sem prestígio.

Na Saúde, a nova secretária Noêmia enfrentou logo de início um cenário preocupante: licitações milionárias – R$ 517 mil em material gráfico, R$ 898 mil em itens odontológicos, R$ 560 mil em combustíveis (contratados com empresa da família do vice-prefeito Sapinho), entre outros valores que, somados, acendem o alerta da população. Enquanto isso, o castramóvel e o aparelho de Raio-X, adquirido ainda na gestão passada, permanecem há um ano parados.

E se a influência da prefeita é forte, a do vice-prefeito Sapinho é onipresente. Seu núcleo familiar está por trás de dezenas de imóveis alugados pela Prefeitura, além de empresas contratadas frequentemente para serviços diversos. Trata-se de um cenário onde o poder é compartilhado por laços familiares, não por critérios técnicos ou meritocráticos. A esposa do vice, Viviane Dantas, hoje secretária de Desenvolvimento Humano, já teria exigido um carro oficial – e o processo de licitação está em andamento.

Na ausência de ações concretas, entra o marketing virtual. A comunicação institucional da Prefeitura tem recorrido a maquetes feitas por inteligência artificial, como a da nova rodoviária ou dos uniformes das creches. São tentativas de “vender” uma gestão que não se vê nas ruas. A reforma dos banheiros da rodoviária, por exemplo, está paralisada desde janeiro, mas ganhou uma maquete que projeta uma estrutura tecnicamente inviável de ser entregue até julho de 2025. São 13 assessores dedicados à produção de versões idealizadas de uma gestão que patina na realidade.

A crise ganha contornos ainda mais graves com o escândalo das mochilas escolares e o possível superfaturamento de livros didáticos, envolvendo diretamente a secretária de Educação. Soma-se a isso a contratação de mais de R$ 1 milhão em material gráfico pela Secretaria de Administração, outro ponto sob investigação. O jornalismo do Paraíba 2.0 apura a relação dessas licitações com gráficas específicas, o que pode configurar um esquema de favorecimento. Nesse tabuleiro, o chefe de gabinete Acássio Barra, apelidado de “ministro”, pode se tornar o epicentro de toda a crise, segundo interlocutores do próprio governo.

Esse conjunto de ações evidencia que o problema de Mari não é só político. É um colapso de legitimidade, transparência e prioridade pública. Secretarias vazias, contratos concentrados em núcleos familiares, decisões administrativas tomadas com base em interesses pessoais – e um governo que parece preferir a aparência à entrega.

No campo político, Lucinha da Saúde jogou com três pré-candidatos a deputado estadual e, ao final, optou por apoiar o deputado Felipe Leitão. Fontes indicam que ele ofereceu “algo muito importante” à prefeita – algo que o jornalismo do Paraíba 2.0 ainda não conseguiu apurar, mas que pode ajudar a explicar a súbita definição da aliança.

A população de Mari merece mais do que maquetes digitais e acordos de bastidor. Precisa de gestão de verdade, com responsabilidade no uso do dinheiro público, respeito à técnica, e compromisso com a transparência. Quando os interesses particulares se sobrepõem ao bem coletivo, o preço é sempre pago pelo cidadão comum – o verdadeiro dono da cidade.

Institucional: Lucinha segue 'muda, surda e cega' desde 1 de janeiro de 2025. 

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