CRÍTICA | Participação popular não pode vir com papel de presente: o caso da vereadora Tânia em Mari (PB)

A iniciativa da vereadora Tânia de Josa, de Mari (PB), ao realizar um encontro direto com a comunidade, é meritória e se insere numa prática democrática essencial: ouvir os cidadãos, sair dos gabinetes e dialogar com quem sente na pele os efeitos das decisões políticas. Em tempos de distanciamento entre eleitos e eleitores, qualquer tentativa de aproximação deve ser vista com bons olhos.

No entanto, o método adotado neste primeiro encontro levanta questionamentos. A presença de brindes, balões em forma de coração e embalagens que remetem a sorteios ou festas comunitárias empresta ao ato um ar mais próximo de um evento festivo do que de um canal institucional de escuta e prestação de contas. A imagem remete mais a um bingo de bairro do que a um gabinete itinerante. E isso importa — não pela informalidade em si, mas pela simbologia e pelo que ela pode representar no cenário político local.

Gabinetes itinerantes são ferramentas legítimas de construção democrática quando voltados à escuta qualificada, com estrutura técnica, mediação de demandas e formalização de propostas. A linha tênue entre ação comunitária e promoção pessoal precisa ser cuidadosamente observada, sob pena de comprometer a seriedade do gesto e, pior, alimentar a velha cultura do clientelismo disfarçado de participação.

É louvável que parlamentares busquem estar presentes nos bairros, nas periferias, junto à população. Mas é fundamental separar política pública de populismo estético. A democracia exige mais do que presença física: exige método, coerência e respeito aos rituais da vida pública. Nesse ponto, a ação da vereadora precisa evoluir.

Porque ouvir o povo, sim. Mas com foco, estrutura e responsabilidade.


Foto: Reprodução Facebook/Site O Farol 

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