EDITORIAL – 100 dias de Lucinha da Saúde: um governo sob pressão e sem rumo definido
Os cem primeiros dias de uma gestão municipal costumam ser o prenúncio do que virá. Em Mari, na Zona da Mata da Paraíba, o início da gestão da prefeita Lucinha da Saúde (PSB) revela um governo marcado por instabilidade política, denúncias graves e uma evidente dificuldade de governabilidade.
A posse conturbada, longe do plenário da Câmara e encampada por apoiadores radicais da ala do ex-prefeito Antônio Gomes, revelou o que os meses seguintes apenas confirmaram: o governo nasceu sob tensão. O tom beligerante da prefeita já se fez presente no próprio dia de sua posse, quando, diante das câmeras e do público, atacou a vereadora Tânia de Josa com a frase: "Não sou sua prefeita". A fala, além de desnecessária, escancarou a falta de espírito democrático que deveria marcar o início de qualquer governo eleito.
A derrota do seu aliado Alisson Gomes na disputa pela presidência da Câmara foi o primeiro sinal de fragilidade. O distanciamento dos parlamentares, até então tidos como aliados, agravou o isolamento político. O revés se ampliou com sucessivas derrotas no Legislativo. A mais simbólica: o projeto de criação da Secretaria da Mulher — que, ao invés de dialogar com pautas sociais legítimas, pareceu mais uma tentativa de inflar a máquina pública com cargos para aliados. O tom pouco republicano da proposta foi prontamente rechaçado pela maioria dos vereadores.
A convocação de três secretários municipais, entre eles Roberta Suênia, filha da prefeita e titular da Cultura, reforça o clima de desconfiança que paira sobre a administração. Some-se a isso a crise nos serviços básicos, com ônibus escolares superlotados, pacientes deixados à própria sorte em João Pessoa por falhas logísticas e uma farmácia básica cada vez mais vazia, alvo constante de reclamações de parlamentares e cidadãos.
O quadro da saúde pública é alarmante: o Hospital Municipal Sagrado Coração de Jesus esteve na iminência de ser interditado pela ANVISA devido à ausência de um gerador de energia — equipamento essencial para a manutenção de atendimentos emergenciais. Somente após essa ameaça o governo se mobilizou para garantir o gerador, numa reação tardia e que expôs a desorganização da gestão. O aparelho de Raio-X da unidade, embora entregue com pompa na inauguração, segue inutilizado. Enquanto isso, o castramóvel, adquirido com verba pública, tornou-se um símbolo do desperdício: um elefante branco estacionado à margem do uso.
As suspeitas de uso indevido da máquina pública são crescentes. Veículos do CRAS utilizados como transporte particular nos fins de semana, pagamentos mensais à rádio comunitária para falas institucionais travestidas de participação de assessores, e a já questionável aquisição de R$ 213 mil em próteses dentárias sem explicações convincentes e destino.
Licitações com valores vultosos – como R$ 1,2 milhão para a montagem de palco na Festa de São Sebastião, R$ 1,7 milhão em material de construção e mais de R$ 1,2 milhão em alimentos – chamam atenção pela falta de transparência e proporcionalidade. Há também uma licitação de R$ 438 mil sem justificativa plausível, além da contratação de 15 assessores na Comunicação, com impacto anual superior a R$ 600 mil só em salários.
Outra incongruência difícil de justificar é o aluguel mensal de uma caminhonete por mais de R$ 8 mil para o gabinete da prefeita — veículo este, segundo informações veiculadas pela imprensa local, utilizado pelo ex-prefeito Antônio Gomes. A gestão ainda enfrenta problemas fiscais: a Receita Federal reteve quase R$ 300 mil do Fundo de Participação dos Municípios devido a débitos previdenciários não quitados.
Apesar do cenário adverso, algumas ações estruturantes merecem registro. A reforma da rodoviária municipal e a recuperação do coreto central e da praça da Igreja Matriz avançam. A pavimentação de ruas, em parceria com o governo estadual, é um alento em meio à paralisia administrativa. E houve, ao menos, uma tentativa de reorganizar a comunicação institucional — embora ainda longe do profissionalismo necessário.
O balanço dos primeiros 100 dias da gestão Lucinha da Saúde é francamente desfavorável. Se a prefeita não romper com os vícios herdados da velha política e não imprimir um modelo de gestão técnica, eficiente e transparente, corre o risco de ser lembrada mais pelas denúncias e pelos fracassos que pelos feitos administrativos.
O tempo, embora escasso, ainda permite ajustes. Mas o sinal de alerta já está aceso.